Isto era para ser um manifesto político, mas decidi dar-lhe mais Amor

293247628_640Manifesto pela ocupação amorosa dos corações vazios

De hoje em diante, fica estabelecido que todos os corações vazios, mal amados, partidos, abandonados ou apenas subutilizados serão pacífica e amorosamente invadidos, ocupados pelo Amor. Sem paus, nem pedras, mas com flores e música e declarações de mimo. O Amor tomará posse irrevogável de todo e qualquer coração devoluto. Todas as almas solitárias deste mundo! Preparem-se para ceder sem luta à chegada implacável do Amor operário, latifundiario, simples e corajoso ao fértil solo dos vossos corações. Ele vai chegar sem slogans, sem passeatas, sem discursos,  sem gritarias, nem mesmo enfrentando as autoridades. Vai surgir na hora mais silenciosa da noite, deitar-se a vosso lado e acordar com vocês pela aurora, como se ali, sempre, estivesse estado.

O amor vai chegar de mansinho, mas com o passo forte e indomável que varre a crosta dos rancores, a lixeira dos maus pensamentos, a gordura acumulada das atribulações diárias, da burrice, da inveja, da má educação. Virá com o viço da vida, desobstruindo os canais da memória entupidos de morte. Virá alegre como o cão que reencontra o dono depois dum dia inteiro sozinho em casa, à espera. E então as preocupações ordinárias e mesquinhas farão as malas e deixarão os corações livres para viver em absoluto estado de ocupação plena pelas intenções e acções dum amor generoso, diário e vital.

E quando as forças armadas dos corações doridos levantarem as defesas, o amor estenderá sua mão pequena, de unhas roídas e sem esmalte, todas as armas cairão em silêncio. Então esse coração abrirá as suas fronteiras à chegada irrefreável do encantamento amoroso, explosão de energia que nos leva ao encontro de quem somos, nos resgata da morte e nos devolve, sãos e salvos, à vida que é hoje, amanhã e depois um longo e eterno agora. Almas solitárias deste mundo, abri-vos!

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Like flowers, words cost more at this time of year

e2f43f7a4bf893ea2a9fbf0055c67411-puritan-valentines-day-cardsAlassane Maiga is one of 10 public scribes that sit on benches outside La Grande Poste, in Bamako, the capital of Mali. In a country with 70% illiteracy, scribes are required to help the public fill in forms and send letters – but this week, Maiga and his colleagues are focused on “Valentine’s Day”.

Bamako is big enough and amorous enough to keep the scribes working until the early hours of the morning in the week before Valentine’s Day – to the extent that they can be seen sleeping on the post office steps.

A love poem by Alassane Maiga
You who know my best and worst points.
You who know my coolness and my warmth.
I dedicate this poem to you, Fatoumata.
You gave me the desire to live.
You reconciled me with my parents.
You reconciled me with the world.
Without you I don’t know what to do. I need to see you. Even your clothing.
If I am walking in the street and I see a colour you wear, I think of you. That’s real love. Thank you. I am thinking of you. I love you so much.

Designed for love

Corezone lets you safely deposit those feelings that are too delicate to voice or too passionate to reveal

And offers the perfect release if your heart ends up being broken. Just slam it against the wall, pick up the pieces, and move on.

On the flip side, though, how wonderful would it be to come late in life knowing your heart was fuller than it was decades before.

When one arrives at the ocean the rules of the river no longer apply

One of my favourite blogs in portuguese is written by Patricia and called “beijo de mulata” (mulatta’s kiss), its being published as a book next friday(A Mission: Diary of a doctor in Mozambique).

“This book recounts the life story of a medical finalist heading to Mozambique to cooperate voluntarily in an orphanage near Maputo. (…) For a set of coincidences finds herself with the responsibility of running a health center, treating diseases that have never heard of and care for children who fought in the war and suffered irreparable losses. The following year back in Mozambique, but this time to a village called Iapala, 200 km from the nearest town, where she is responsible for the only hospital in the area and where they are faced with a peculiar form as people face illness, death, and gets to know their rites, taboos, drugs and poisons. In this environment she meets extraordinary people and falls in love with someone in the most unlikely of circumstances.”

«Yesterday the son of a friend, now aged seven, said he would find beautiful that we could be born from the earth and not the belly of the mothers. When she replied that babies are certainly more comfortable inside the womb. He replied, “but we are people of the world and children of the earth!”»

O outro lado da montanha

Dashrath Manjhi vivia mais a sua esposa em Gahlour, na Índia. Gaya, onde ficava o hospital mais próximo ficava a 70kms, por uma estrada sinuosa no sopé dos Himalaias. Em 1959, Falguni Devi adoeceu, não suportou a longa viagem e acabou por falecer, em sua honra o marido jurou cortar a montanha.

Vendeu todas as suas cabras e comprou um escopro, um martelo e cordas, ganhou dinheiro a vender as pedras do caminho. Dia e noite durante 22 anos. A família achava-o louco, os vizinhos gozavam-o, até ao dia em que os 110 metros de comprimento e os 9 metros de largura que permitiam que as duas vilas distassem apenas 8kms foi atravessado pela primeira vez.

Majhi ficou conhecido por Pahad Purush, o homem da montanha e construiu à mão um Taj Mahal.

 

 

 

João e Maria na cama

«Ela esqueceu os brincos aqui em casa. Duas argolas.
Talvez fosse a tensão da nossa primeira noite – a eletricidade sexual que causa arrepios na pele também leva o cérebro a curto-circuito. Quando se apercebeu, já estava longe, e sem o par de argolas. Eu encontrei os brincos no tapete do quarto, enquanto recolhia minhas roupas do chão.
Doze dias depois, na tarde modorrenta daquele domingo, liguei para a dona das argolas.
— Encontrei seus brincos.
— Puxa, achei que nunca mais os veria. Me custaram os olhos da cara.
— Passa aqui em casa para eu devolver.
Ela era uma mulher nascida para o sexo. Despida das roupas e do pudor, beijava minha boca fervorosamente. Para mim, ela era uma espécie de religião.
Trepamos até não sabermos mais de quem era qual mão, qual braço, qual pé. Mas havia algo além disso.
Foi a primeira vez que pensei em esquecer minhas outras mulheres.
Foi a primeira vez que pensei em casamento.
***
Naquela noite de domingo, novamente encontrei brincos no chão. Um par de corações feitos de opala. Foi então que tive uma epifania:
— Estamos brincando de João e Maria.
Ela deixava migalhas em forma de brincos no chão para encontrar o caminho de volta. Mas nessa nossa versão particular e luxuriosa da história, um devoraria o outro. Sem carochinha.
Quinze dias se passaram, tempo suficiente para minha Maria imaginar que eu pudesse não ligar mais. No jogo da sedução, o suspense é uma arma – o frio na barriga instiga ainda mais o quente do sangue. Saí com outras duas mulheres – uma delas, a morena índia esculpida e talhada à luxúria que trabalha no escritório em frente ao meu. Ia sair com uma terceira, mas minha Maria ligou.
— Acho que esqueci meus brincos na sua casa. Que cabeça a minha… Posso passar aí para apanhá-los?
Ela passou.
A noite passou.
A manhã passou.
Nós não passamos. Ficamos ali, na cama de lençol amarrotado por um dia inteiro, remoendo um desejo sem fim. Saíamos apenas para ir ao banheiro e á cozinha comer qualquer coisa, e logo voltávamos para o colchão.
No dia seguinte, meus pés pisaram duas plumas. Doeu a tarraxa fincando na sola. Era um novo par de brincos.
***
— Oi. O que vai fazer hoje?
— Nada.
— Vem em casa.
Ela chegou com fome, com fúria. Me apertava ainda no hall do prédio. Mordia. Machucava. Marcava. Cravava as unhas nas minhas costas. No quarto, berrava palavrões, me xingava de puto, me dava tapas. Mesmo esgotado, eu a desejava com cada fibra de músculo do meu corpo. Corpo este marcado pelas unhas de Maria, que me rasgara a carne e me roubara a alma.
Estávamos exaustos, mas nunca saciados. Aquela mulher deitada ao meu lado e divertindo-se com nossos corpos cansados haveria de ser minha.
— Estive pensando.
— Em quê? – ela perguntou, fechando sua pequena mão na minha
— Nisso. Em como nossas mãos se encaixam.
— Bobo. A gente se encaixa em tudo.
— Casa comigo?
Ela sorriu um sorriso redondo. Disse “sim” com um beijo.
O primeiro beijo como minha futura mulher.
O último também.
Quando entreguei o par de brincos de plumas a ela, Maria fechou a cara, apenas disse “não são meus” e bateu a porta na saída. Nunca mais retornou. Deve ter perdido o caminho de volta.»