Pão e circo

view_13_The-Deer-Hunter_eyeOs concursos de chefes de cozinha assemelham-se a fábulas medievais, nelas aldeões aterrorizados aplacam com iguarias a fúria de ogres míopes ou dum senhor sanguinário. Em todos os programas, emergem da sala de descanso aluados como galinhas num aviário, os bobos, num continuo recomeço do nível de tutoria, sem cheiro a fritos para o espectador. O drama é servido em meias-doses, um concorrente deixa cair uma panela fora de enquadramanto, ouve-se o som do inox a bater no ladrilho (que é madeira), a câmara apressa-se a focar a chacina do refugado e o comentador arrebata-se ao captar o caos da tentativa de assassínio do alho em azeite, o aluno diz que limpa (não limpa) enquanto os revisores esboçam um olhar aleivoso ao trágico acto divino da gravidade sobre pulsos fracos.

Os mentores juram que rapaziada vai sair dali pronto a cozinhar um jantar romântico, para a namorada e a salmonela, uma roleta russa à la O Caçador. Os professores vão transformar aquele bando de desmiolados e não mais os verão a testar a validade duma lata de feijão frade pelo barulho que esta faz ao agita-la junto ao ouvido, sairão dali mestres em decorar pratos com derrapagens de puré e ervas. Por vezes farão visitas de campo e experimentarão a sensação de primus inter pares no meio dum nabal. Os revisores durante as provas lhes demonstrarão a diferença de consistência do peito de frango rosado no centro e dum selim de bicicleta. Finalmente os juízes usaram a arrumação da estrurgia(bancada) como elemento definidor do prato, até porque ainda se está para ver os alunos entretidos no final a raspar o gengibre do ralador como prova de destreza.

O sacrificio de virgens em altares é outro tema caro da Idade Média e sobejamente lucrativo hoje em dia, dai introduziram-se as crianças. O próximo passo adivinha-se, senão desde já o proponho, acrescentar um público alarve, de sofrimento. Os desafios não serão somente o relógio e as papilas dos juízes, adiciona-se-lhes tensão dramática na forma de desafio pessoal. “A Diana tem um medo irracional por facas e está há 10 minutos a enfrentar um cutelo murmurando mantras  para se manter calma e fatiar o tofu, já o Salvador sofre duma alergia extrema ao glúten e vai esmigalhar um pacote de bolachas com o cotovelo até este inchar e ficar do tamanho duma canoa. Cozinhar nunca foi tão difícil.”

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