Levantado do chão

86772757_640Cinco minutos de “Walking Dead” e bastou. Uma criança entende mas poucos adultos atrevem-se a lá regressar: casas como fortalezas(castelo de Legos), objectos do quotidiano como armas(berlinde como bala) e as necessidades básicas como tesouros(fralda limpa). O adulto vai para a net discutir a melhor arma branca quando hordas de zombies atacam. A atrofia da imaginação adulta explica muita coisa. Ao contrário da criança, o adulto precisa duma desculpa para imaginar o “e se” e libertar-se das obrigações e expectativas do dia-a-dia.  Nas correrias destes desesperados, urbanos e cansados ressoam as anomalias da vida moderna. A primeira é a liberdade que vem com uma nação invadida por mortos-vivos desmiolados. Há uma espécie de pureza nos fogos apocalípticos que queimam o trivial e reduzem as complexidades da civilização a simples sobrevivência. O anseio duma vida mais significativa, a fuga aos encargos e rotinas da modernidade. O adulto identifica-se com a minoria que manteve a humanidade e fugiu da sobrevivência e daqueles que estão presos no apocalipse zombie, passou para uma transcendência ao erguer-se duma realidade supranormal mais vivo, mais consciente, mais verdadeiramente humano do que agora.

A fraqueza e incapacidade também ressoa na formatação adulta, os sobreviventes são distinguidos pela falta de habilidade para salvar vidas, conhecimentos práticos ou auto-suficiência. A vulnerabilidade consumista e a inutilidade urbana que disfrutam da prosperidade abrigada dentro do sistema remoto e impessoal que satisfaz as necessidades básicas: comida, bebida, roupas, abrigo e transporte. Ao mesmo tempo tão confortável ainda que precária é profundamente inquietante a confiança dos adultos em sistemas cada vez mais remotos que fazem por eles o que não podem fazer por eles mesmos, enquanto investem o tempo e o suor em conjuntos igualmente complexos e remotos de actividades, através do qual mantem o lugar metropole. Os centros urbanos, são pontos focais de riqueza e população, tornam-se os centros mais devastados pela  infecção zombie e por outro lado, é a relativa independência e afastamento da ruralidade que oferecem maior segurança e o microcosmos através do qual os fugitivos podem recomeçar a formular uma forma sustentável de subsistência. Abandonar os centros urbanos mortais e fugir para o interior vivo joga com o anseio de liberdade e sentido de fraqueza que resulta dependência de um sistema cada vez mais remoto e desumano.

Eu estou a precisar de mudar a fralda, borrei-me de medo. :D

2 thoughts on “Levantado do chão

  1. Como gostava de não perceber do que falas!

    Abraço,
    FATifer

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