Las Hurdes

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Que luxo acordar e ler este texto do escritor José Rentes de Carvalho a caminho do trabalho.

(La Alberca, © JRC )
Em Espanha, nos dias de hoje (Março de 1992) é pouca a paciência para aturar  desmancha-prazeres. Quando no hotel em La Alberca recordo ao meu interlocutor que, vinte anos atrás, um jornalista propunha o nome de Costa del Luto para a região de Las Hurdes que intento visitar, o seu rosto passa da bonomia ao azedume.
– Antigamente talvez se pudesse dizer isso. Hoje está tudo mudado –  assegura ele, acendendo um cigarro para esconder a sua irritação, e procurando guiar a conversa para a excelência do presunto local e dos vinhos de Sotoserrano.
Neste momento, todavia, nem o presunto nem os vinhos me interessam, mas de Las Hurdes não quer ele falar, e despedimo-nos com protestos hipócritas de amizade. Fica-me a desagradável impressão de que, noutros tempos, não teria hesitado em ir informar a Guardia Civil do meu estranho interesse.
Amanhã de manhã cedo meto-me a caminho, a satisfazer um fascínio nascido no dia remoto em que, na nossa aldeia, um cinema ambulante exibira o documentário realizado por Luis Buñuel em 1932: Las Hurdes – terra sem pão.
Criança com vida farta, eu conhecia a miséria por vê-la de perto, mas nunca ela me incomodara excessivamente. Talvez porque havia dignidade na indiferença com que homens e mulheres se vestiam de andrajos, e na aceitação de que, dias a fio, o seu comer não passava de pão e cebola, cebola e pão. As misérias da África e da Ásia eram longínquas e demasiado exóticas para me impressionar, mas o que o filme de Buñuel mostrava passava-se, por assim dizer, ali ao pé da porta.
Um pouco mais de fome ou de doença, um temporal que levasse as terras de cultivo, e quem sabe se a nossa aldeia não viria a sofrer o terrível destino daquelas alqueriasque pareciam suspensas nas encostas.
Choupanas com menos de dois metros de alto, feitas de estacas e de ramos, ou então de penhascos amontoados, com telhados de ardósia e pedra lisa. Algumas paredes toscamente recobertas de um barro esbranquiçado. Terríveis de ver, com a porta como única abertura. Mais terríveis ainda ao descobrir-se que no único aposento se albergavam os humanos e os animais.
Dias antes, em Salamanca, o jornalista tinha rido dos meus medos de criança e acrescentado as suas próprias recordações:
– Quando lá estive em 1972, ainda nem todos os aldeãos tinham introduzido o ‘melhoramento’ de levantar um tabique a separar os animais da casa. E muitas vezes o aposento era totalmente ocupado pela palha que servia de cama à família inteira. Os homens, pude vê-lo numa ocasião em que entrei na casa de um que estava doente, deitavam-se completamente vestidos, sem tirar as botas e com o chapéu na cabeça.
Falo a um catedrático jubilado que me encarara com ironia:
 – Que raio procuras tu em Las Hurdes, se até os Romanos desdenharam delas e os Árabes passaram de longe? Antigamente ia-se lá para ver a miséria legendária dos hurdanos, mas comparada com ela os pobres de hoje têm vida de rico.
Nas aldeias fizeram-se casas boas, algumas mesmo grandes. Por toda a parte há electricidade, telefone, estradas de asfalto.
Os montes, esses infelizmente é que não mudam, e as pessoas agora atrevem-se a emigrar, o que quase não acontecia no passado. Os terrenos onde se cultiva alguma coisa, pouca, medem-se em metros, que o mesmo é dizer em palmos. Há o mel, colhe-se algum azeite. E que mais? Uns hectares de batatas, as cabras… Os burros que são ainda imprescindíveis. Sabes que em todas Las Hurdes se contam as vacas pelos dedos de duas mãos?
Eu sabia-o dos livros, mas seria pena interromper o testemunho vivo. Ele voltou de novo ao passado, falando do médico seu amigo que, nos anos sessenta, em Pinofranqueado, era o único em toda a redondeza. E que uma noite foi chamado a acudir a uma mulher que, em Ovejuela, então a uns 12 km de caminho pela serra, sofrera um aborto.
Nas noites sem lua, como essa, via-se passar o Sputnik, e o médico recordava que o satélite russo tinha feito três rotações em volta da Terra, antes dele próprio alcançar o seu destino. Imagina tu! Há uns escassos trinta anos!
(La Alberca)
Las Hurdes foram isso. A grande miséria, um incrível isolamento, o atraso causado pelas pressões seculares e conjuntas dos senhores e da natureza. O povoamento inicial deve ter sido mínimo e só a partir do séc. 13 é que se formaram os primeiros núcleos, as majadas, currais que mais tarde se viriam a converter em aldeias.
No séc. 16 Las Hurdes eram interessantes bastante para estarem sujeitas a dois señorios, o de Granadilla e o de La Alberca, senhorios esses que por sua vez pertenciam ao poderoso duque de Alba. Um contrato firmado em 1531 entre o duque e os representantes do povo, com a finalidade de pôr cobro aos abusos de autoridade dos senhorios, acabara por na verdade atar os hurdanos a um estado servil em que iriam ficar até ao séc. XIX.
As 18 cláusulas dele pouco mais lhes deixavam que o direito de respirar: não lhes era permitido vender os seus terrenos, nem dá-los, nem trocá-los com gente de fora, nem arrendar os pastos. Não podiam fazer sementeiras junto das colmeias (que eram dos senhorios, nem tirar mato do monte, nem pescar, nem cortar madeira, nem sacar cortiça.) Além disso tinham ainda de pagar anualmente 7.500 maravedis ao duque, e porque este apreciava as perdizes, exigia-lhes também, entre as festas de São João e do Natal, a entrega de 75 pares das mesmas.
A partir de 1835 os hurdanos puderam finalmente adquirir as terras em que viviam e trabalhavam, mas não foi isso que lhes aliviou a miséria, pois nas montanhas elas reduziam-se, reduzem-se ainda, a escassos hectares da chamada ‘terra sem terra’, onde o solo que cobre as pedras tem apenas uma espessura de 10 a 20 cm.
Saio de La Alberca com a emoção de quem parte para uma viagem de descoberta, vagamente envergonhado do meu conforto. Nas voltas da estrada brilha por momentos ao longe o topo nevado de Candelário (2.373 m) e tendo percorrido menos de três quilómetros estou no Puerto del Portillo (1.230 m) e estaco de pura surpresa com a grandiosidade do panorama.
Diante de mim estende-se a vasta sucessão das escuras montanhas de Las Hurdes, capeadas de pinhos, tendo por majestoso pano de fundo o Pico Almanzor (2.592 m) da Sierra de Gredos.
Volto-me e o contraste não pode ser maior: envolta numa luminosidade irreal, a planície espraia-se por mais de uma centena de quilómetros, bem para lá de Salamanca. Nela tudo fala de fertilidade, enquanto que as montanhas escondem a sua pobreza sob o manto verde das encostas.
A descida faz-se lentamente e nalgumas curvas quase é preciso parar. No vale de Las Batuecas frescura e serenidade, mas em parte nenhuma se vê gente ou sinais dela. Até que entro em Las Mestas. Aldeia pequena, aconchegada, onde pergunto o caminho e digo ao que venho, para quebrar assim a desconfiança que a minha presença desperta.
A estrada é íngreme, mas razoável. Passado Cabezo entra-se verdadeiramente em Las Hurdes Altas e daí a El Ladrillar surpreende-me o número de anciãos  que encontro sentados nos muros a aquecer-se ao sol.Na aparência indiferentes, mas seguindo com os olhos o desconhecido.
A um homem que cava um campo diminuto peço que me fale da vida em Las Hurdes.
– Está tudo muito melhor. E são poucas as aldeias sem cemitério. Para enterrar o velhos – acrescenta ele com um sorriso amargo. – Que os novos fugiram daqui, sem vontade de voltar.
Felizmente já não é a miséria que conheceu até há poucos anos, o desespero de não saber como ganhar para comer, ou a angústia de que não lhe acudissem na doença.
– Mas fora isso… Que me dão estas quatro oliveiras e o bocadito de terra? O senhor com certeza os viu por aí abaixo, os reformados sentados nos muros como os pardais. Esse é o futuro que temos e com ele teremos de nos contentar. Mas para lhe dizer a verdade não faltam ocasiões em que apetece mais a morte do que esta vida.
El Ladrillar acolhe-me mal. Às minhas perguntas os moradores encolhem os ombros ou voltam-me as costas. Desço para Vegas de Coria, maior que as demais aldeias. O edifício que a domina é tão desmedido em comparação com os restantes, que pergunto o seu uso. É um colégio religioso de ensino secundário, informa-me um rapaz com um entusiasmo de fanático. Em seguida louva Deus, a Igreja Católica, as autoridades e a beleza dos montes que nos cercam. Reparei eu nos slogans que por toda a parte se vêem escritos nos muros: Deus vê-te! Só há dois caminhos. Qual escolhes? Deus espera por ti de braços abertos!
– Deus – continua ele – salvou Las Hurdes, trouxe alegria, deu-nos bem-estar.
Agradeço a informação e ponho-me a caminho de Nuñomoral, um tanto desnorteado, porque em nada coincidem as casas bem arranjadas com a miséria da minha espectativa.
 Dou boleia a um homem de idade que vai estrada acima, curvado sob o sol do meio dia. Também ele acha despropositado o meu interesse pela região e o afã em querer ver o que já não existe.
-Isto já não é como antigamente. Hoje todas as aldeias têm igreja e cemitério.
Mas acaba por me contar a sua vida de pedinte, dos dez aos trinta e tal anos a palmilhar os caminhos de Espanha, até ao dia em que tinha encontrado trabalho em Bilbao.
Se aceito um copo. Aceito. Chegamos a Asegur e paramos diante duma casinha caiada e florida, à beira da estrada. A mulher aparece um momento, traz o vinho, ele enche os copos. E eu recordo a minha incredulidade quando o catedrático tinha dito que nos velhos tempos, tão grande e geral era a miséria, que em Las Hurdes a vida de mendigo passava por ser das mais proveitosas e socialmente das mais respeitadas.
O ex-pedinte confirma. E é ele que depois me guia a uma ruela onde pela primeira vez defronto um grupo de casas feitas de pedra solta, o telhado de pedras lisas, com a porta como única abertura e um só  aposento.
Passada a surpresa da minha presença, as mulheres que costuram ao sol falam dos homens que estão em França, e de como são longos os dias de quem espera. O meu pedido discreto para poder entrar é recusado com firmeza: as casas são como as mais, sem nada de especial.

Continuo para Casares de las Hurdes. Um cartaz em letras góticas anuncia à entrada da povoação que sábado à noite, na discoteca Peña, haverá Dirty Dancing.
O hostalMontesol tem um bar com vista para a serra onde entro a matar a sede. Esperava-o deserto, mas está á cheio com uma clientela exclusivamente
masculina, totalmente embriagada, trocista ao ouvir-me que peço um café e água. Pro forma peço também um anis, mas em vez dele a proprietária serve-me um enorme copo de Chinchon Seco, que apenas toco com os lábios sem o engolir, tão presentes me estão as palavras ouvidas um dia ao meu amigo Xavier Domingo: “O Chinchon Seco Especial tem à volta de 70% de álcool e causa uma bebedeira muito próxima dos ataques de loucura.”
Provo um gole de nada, e é como se da garganta ao estômago me envolvesse uma grande labareda. Vou para a varanda de copo na mão, com o pretexto de admirar a paisagem, e despejo-o num vaso de sardinheiras.
Passo a noite assombrado por maus prenúncios. No dia seguinte vou encontrar de novocasas tradicionais em El Gasco e em La Fragosa. Algumas delas ainda habitadas, mas de de novo impenetráveis à minha curiosidade.
Em Riomalo de Abajo um informante voluntário desfia estatísticas:
– Las Hurdes, 470 km quadrados, 40 aldeias, 8.000 habitantes. Entre homens e mulheres saíram de Riomalo uns 500 emigrantes, ficaram cerca de 120 pessoas. Há trinta aparelhos de televisão, 25 automóveis e 4 camiões. Nas casas velhas não vive ninguém, não senhor.
Em Pinofranqueado mostram-me o parque de campismo à entrada da povoação e ressentem-se que eu me não entusiasme. Mostram-me também, como prova de modernidade, que por detrás da igreja se encontra a Calle de los Derechos Humanos. Não desdenho, mas não vejo razão para aplaudir.
Caminomorisco, com a única bomba de gasolina em muitas dezenas de quilómetros ao redor, em nada lembra Las Hurdes: é quase uma cidade, tem serviços, bancos, lojas, a vida recatada a que na província obriga a desproporção entre o elevado número de mulheres e os relativamente poucos homens. Nela nada convida a parar ou a ficar.
O meu coração enternece-se em Las Erías e Aldehuela, dois fins-de-mundo com ruas tão estreitas que os moradores se podem dar a mão de varanda para varanda, e hortas tão diminutas que para caber nelas o homem e o seu burro têm de ir atrás um do outro.

Chego a Nuñmoral passa das duas e sento-me num restaurante vazio. A patroa vem direita a mim com má disposição e quase me grita que é cedo de mais. Para uma só pessoa não se vai pôr a cozinhar e os homens em Nuñomoral só almoçam por volta das quatro ou cinco. Que venha mais tarde.
(Aldehuela)

Retorno a Vegas de Coria. Amesendo com um grupo de maquinistas e camionistas de Cáceres que andam a alargar as estradas.
– Las Hurdes – diz um deles – é a pobreza que se não vê. Não há indústria, não há comércio, não há lavoura. As estradas vão ficar boas para os turistas, se bem que os que por aqui aparecem não deixam vintém.
Mas porque é que, já que escrevo sobre a Espanha, não vou antes para Sevilha ou Barcelona? Não é aí que vão acontecer coisas grandiosas, a Expo, o comboio de alta velocidade, os Jogos Olímpicos?
Um colega replica-lhe malicioso que, português, eu certamente acho mais interessante vir ver se a miséria de Las Hurdes é maior que a de Portugal, e por um momento paira sobre nós um ar de discórdia. Mas as minhas explicações e a afirmação dum colega, de que já não há espanhóis nem portugueses, que somos todos europeus, desanuviam o ambiente, justificam outra garrafa de vinho.
Mais tarde, de puros na boca e ligeiramente “tocados”, despedimo-nos com abraços fraternais. Eles para as obras, eu para o Cottolengo, a instituição religiosa misto de asilo, maternidade e hospital, que é em Las Hurdes o sinónimo da caridade cristã.
As freiras querem falar do presente e do futuro, enquanto que eu gostaria que me falassem do passado. Da primeira superiora do Cottolengo, madre Maria Manuela, que para rasgar um caminho para Nuñomoral se pôs a trabalhar de picareta à frente de um grupo de homens, e já á levava três quilómetros feitos quando as autoridades deram conta do empreendimento. Mas para as simpáticas sucessoras tudo isso é história antiga. Os seus interesses são outros. Pausadamente acompanham-me ao portão e desejam-me boa viagem, chamando sobre mim a benção do Senhor.

Novo dia. Volto a El Gasco, que me tinha agradado. Vou-me a pé em busca do Chorro, a cataracta que salta 70 m de rocha e alimenta as águas do Alagón, um dos grandes afluentes do Tejo. Forneço-me de pão, queijo, água, uma garrafa de vinho, e num gesto sentimental de despedida subo os 1592 m do pico da Canchera.
Fico-me ali a cismar. Com a impressão de em Las Hurdes quase ter tocado algo que sei existir, mas que finalmente recusou desvendar-se-me. Talvez porque a apressada ânsia de querer ver não tem cabimento nos lugares onde o tempo passa lentamente, e como que contra vontade.

                                                               * * *

(*)Publicado em versão neerlandesa no jornal de Volkskrant com o título: “Em Las Hurdes já não há aldeias sem cemitério”. Amsterdam, 04.04.1992.

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