Navalha de Occam lusitana

Occams-Razor_1896-l

Fim de almoço, lembrando as doenças, os passamentos, o muro que desabou, a falta de sol.
A digestão pesa, a conversa amodorra, os assuntos esmorecem, e então um de nós, com intenção igual à de quem espevita as brasas da lareira, anuncia que já pôs no testamento: quando falecer quer que simplesmente lhe embrulhem o cadáver num lençol, pois nada acha mais burlesco do que um defunto aperaltado, com nó de gravata, camisa de seda, condecoração na lapela, calças vincadas e sapatos de verniz.
Um outro, com curiosidade genuína, pergunta se alguém sabe se aos mortos também vestem roupa interior.
Há sorrisos acanhados, este diz que com certeza não, seria ridículo, aquele pensa que sim, parece-lhe decente, os mais entreolham-se, à espera de opiniões. É então que alguém fala da Guida Raposeira que Deus tenha.

A devoção dessa alma era lavar os mortos e vesti-los a preceito, até ao dia em que a funerária quis para si o serviço e a paga. Desapontada, arranjou vingança: oferecia-se para fechar o velório, e mal se via a sós inspecionava a roupa do defunto. Dali a pouco corria o boato. Estes tinham vestido a mãe com uma saia rota, a tia daqueles ia sem meias, ao pai do tendeiro nem sapatos tinham posto, mas uns chinelos, o Bernardim ia sem ceroulas.

Grande alívio quando ela própria faleceu, mas a curiosidade doentia ficou, os boatos também.” Roubado  do blog Tempo Contado da autoria de José Rentes de Carvalho

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