Com amizade

«(…)E aí sucederam coisas curiosas.
Por exemplo…
Um concurso de aplicação de adubos no Cercal. Antes das provas de aplicação do adubo, tinha havido um curso sobre a maneira como as plantas se alimentavam, de fisiologia vegetal. Simplesmente, andava sem operador de som e não pode entrevistar os concorrentes. A imagem televisiva terminava com o Governador Civil a dar o prémio do primeiro lugar. Para contornar a falta de som, abeirei-me do vencedor e disse-lhe: “Você tem de ir à televisão!” Ele disse-me: “À televisão?! Pois se eu nem sequer fui alguma vez a Lisboa!”. “Mas vai! Se o Eusébio vai, o senhor também tem que ir porque este prémio é formidável”, respondi-lhe.

E foram?
Fui esperá-los, a ele e à mulher, no sábado a Cacilhas e trouxe-os para Lisboa. O programa era às oito da noite do dia seguinte, eu fui buscá-los às cinco. Naquela altura, o aeroporto não tinha vedações, mas sim morros de terra onde as pessoas paravam os carros para ver os aviões. Levei-os lá no meu carro. O vencedor ao meu lado, a mulher dele atrás que dizia: “Benditas as mulheres que pariram ‘homes’ capazes de inventar estas ‘mánicas’’. 
Ela era muito mais viva do que ele. Tinha de explicar ao homem tudo: “A gente vai conversar sobre a sua alegria de ter ganho o prémio”. “Ah, eu gostei de ganhar”, dizia-me ele. “Mas gostou porquê? Talvez seja desamor para os outros”, dizia-lhe eu, “mas a gente gosta de fazer boa figura e para além disso o dinheiro vai-lhe fazer jeito para um poço, por exemplo”. Ele respondia-me: “Nã, nã, a gente não tem água”. Eles eram assalariados, portanto só tinham uma casinha. Disse-me ela: “O que a gente vai fazer é comprar uma ‘mánica’ de costura”. Então pronto, disse eu, “dá conta nisso na televisão”.

E na televisão, sairam-se bem?
Fomos para o estúdio: “Senhores telespectadores, hoje vamos assistir a nada mais nada menos do que uma prova muito interessante sobre a maneira de adubar correctamente. Vamos ver a prova”. E lá se mostrava a prova, e eu ia comentando as imagens. “E agora vemos que o senhor fulano tal a receber o prémio e agora ele está aqui connosco.” E lá a câmara mostra ele, ao meu lado, no estúdio. “Está aqui e radiante”, disse eu. “Estou sim senhor, satisfeito, por duas razões: a primeira é porque fiz boa figura, a segunda… a segunda não me lembro.” Isto em directo.
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