O óbvio é difícil de se ver caro amigo

O deputado andava preocupado, estava na casa há dois anos e não tinha sequer começado um pé-de-meia. Não conseguira desviar verbas ou desenrascar uma licitaçãozinha que seja para o partido. A marosca para a construção duma rotunda falhara, perdeu a confiança dos comparsas, apareceu no jornal e chorou copiosamente ao ver o seu nome citado no processo. Era um fracasso completo, tinha decepcionado todos, aos compadres confidenciou, “Vejam bem não é por falta de tentativas, todos os esquemas que entrei deram bota. O estádio era minha grande oportunidade foi para o vice. A verba dos hospitais que era o plano perfeito, foi toda desviada. Para quem? Para o ex-ministro! Tudo o que fiz aqui falhou. Estou desesperado.” Mais tarde naquele dia, o deputado que tudo fizera para “melhorar a vida do povo” – uma grande vergonha, diga-se – recebeu uma chamada. “Nobre colega, estamos a par da sua situação. Somos um grupo de cavalheiros que padecem do mesmo mal. Vamos reunir-nos hoje à noite, o senhor está convidado a participar.” Depois de receber o endereço, partiu para o encontro. Estava desesperado, qualquer coisa seria bem vinda. Fora convidado para um encontro, devia ser algo importante. Poderia ser o mais novo escândalo e ele participaria logo desde o início. Lágrimas de emoção. Quando chegou ao local do encontro, o deputado viu quem seriam os seus colegas na nova empreitada. Os maiores fracassados da câmara, da direcção anterior e até dois ministros.

A reunião começou quando surgiu o Sr. X, o pior de todos, o mais odiado dos políticos. Nos últimos dez anos, todas as falcatruas descobertas tinham o dedo dele. Ninguém sabia como o fazia , bastava ele tentar entrar num esquema que tudo era descoberto. O mestre de cerimónia, um deputado que sem saber o que assinava, ajudou a triplicar a verba da saúde pública, discursou, “Excelentíssimos, estamos aqui por um motivo. Somos um bando de expoliados. Sim. Somos o mais asceroso que país já conheceu. Todos que estamos aqui,  temos uma habilidade quase sobre humana de fazer as coisas erradas correrem bem. Gostaria de cumprimentar o Sr. X aqui presente pela extrema capacidade de ter sido o único de nós a conseguir desviar dinheiro pública um paraíso fiscal”. Aplausos efusivos ecoaram pelo salão, o deputado estava emocionado de ali estar. Algo grande viria. Tinha certeza. Alguém conseguira desviar fundos para uma conta numa ilha tropical. Precisava urgente de se aliar a esta gente.

“O dinheiro foi parar à conta secreta dum terrorista internacional, expondo ao mundo uma rede criminosa que levou a demissão dois de banqueiros. Você é o melhor de nós. Todo objectivo que traçamos até hoje nas nossas carreiras resultou no pólo oposto. Temos de dar a volta. A ideia é simples, é só fazermos o contrário do oposto. A partir de hoje vamos fazer o que pudermos em prol do povo. Fazer o que fazemos de melhor mas querendo fazer o bem para o povo. Entendem o plano?” O deputado levantou e gritou: “É CLARO! É genial. Como não pensamos nisso antes!” As coisas iriam dar certo, erradamente. Ele sabia que uma hora a mágica aconteceria.

 

 

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s