Ik moetpoepen

«(…) desde essa altura tudo está na mesma, um dos quartos do primeiro andar tem um banheiro que, pelo desproporcionado das suas dimensões, protagonizou na história que segue.

Cameraman, som, redactor, produtora, três trintões e uma rapariga ainda nos vinte que, inexperiente, trabalhando pela primeira vez no estrangeiro, morria de nervos. Eu, sessentão, fingia de manda-chuva, só levando a sério o trabalho,que resultaria em dois programas de uma hora sobre Portugal.
Começámos pelo Porto, Minho, Gerês,Trás-os-Montes, descemos a Fátima porque o 13 de Maio era do programa. Caiu a peregrinação numa quinta-feira, e logo ao fim da tarde tomámos de assalto o Palace Hotel do Buçaco, contentes com o trabalho feito, mais que derreados,a canseira justificando um longo fim-de-semana.

Estávamos no bar quando a nossa colega, que se tinha ausentado, voltou a correr com um ar de grande aflição, quase gritando: “Waar is de toilet! Ik moetpoepen!”
Na Holanda sempre houve, mas tem aumentado, o modo directo, e os plebeísmos na linguagem a poucos incomodam. O que eu ali não esperava era que o barman compreendesse holandês e, sem outros clientes, ignorando que eu fosse compatriota, traduziu para o colega:
– A gaja quer cagar!
Não me dei por achado. Quando a rapariga voltou quisemos saber se não tinha estado no quarto, e ela explicou:
– Claro que estive! Tentei! Mas vocês vão ver, é um banheiro enorme, é como estar num largo! E eu sofro de agorafobia!»

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