Metalocalização

«Nos últimos cinco anos, houve em Portugal… fantasia a mais e pensamento a menos; houve anarquia a mais e estrutura a menos; houve infantilismo a mais e maturidade a menos… Pretendeu-se eliminar, na boa fé de alguns ou nos desígnios calculistas de outros, a necessidade e a urgência daquela reforma de mentalidades, daquela mutação de valores, daquela revolução dos costumes e das instituições, de tudo aquilo, numa palavra, que constitui o viver de um povo na sua mentalidade, na sua história, na sua cultura.
Não se começou pelo mais importante e nem sequer se atendeu, como cumpria, ao mais importante. Faltou ou adiou-se em excesso uma autêntica pedagogia de mudança, da necessidade e da consciência da mudança. Porque não havia pedagogos ou porque aqueles que havia não eram escutados no enorme vozerio…? Pelas duas razões foi.(…)
Atrevo-me a dizer provocativamente: o Portugal de hoje tem necessidade não de saciados mas de famintos em espírito; não de repetidores de gestos próprios ou alheios mas de pesquisadores; não de mandarins mas de profetas; não de reformados da vida mas de comprometidos até ao fundo com a mesma vida; não de ideólogos mas de contemplativos (de contemplativos na acção, entenda-se); não de representantes do particular, do campanário da própria aldeia (partido, seita, grémio, clube) mas do vasto mundo, literalmente do universal. Só eles poderão depois, com conhecimento de causa e sentimento pela causa, ver o concreto, analisar o concreto, assumir o concreto no sentido de o transformar. O Portugal de 1979 tem necessidade, pelo menos tanto como de pão para a boca, de passar da heteronimia à autonomia, do individual ao comunitário, da inconsciência mais ou menos colectiva à consciência o mais crítica e universalmente generalizada. Se isso é função de todos, é-o, muto em particular dos chamados “homens de cultura”.
É a eles, sobretudo, que compete perguntar e ao menos tentar responder a estas questões de base: Quem éramos nós? Em que realidade colectiva nos transformámos? Onde estávamos? Aonde regressámos? Para onde caminhamos? De onde nos virá no concreto a libertação? Que meios utilizaremos para a tornarmos efectiva, quer dizer adaptada à comunidade que fomos e, sobretudo, à comunidade que somos?(…)
Que espécie de sociedade desejamos?… Uma sociedade em que estejam definitivamente para trás de nós o liberalismo atomista e o colectivismo totalitarista… em que não se maximize o lucro nem se sacralize o poder. Um sociedade em que o Estado, em vez de fim em si mesmo e de fim dos grupos que o compõem, se encontre, de verdade, ao serviço da comunidade das pessoas que o excedem em toda a linha(…) Uma sociedade em que a liturgia do ser elimine, vá eliminando, a liturgia do aparecer em que a sociedade portuguesa, ao longo dos séculos, tão fecunda e faustosa tem sido… Uma sociedade em que o enfrentamento seja substituído pela confrontação, a competição dê o lugar principal à competência e a solidariedade vá, gradualmente, assumindo a categoria da igualdade na alteridade.(…)
Uma sociedade em que o espectro da mentira generalizada pela propaganda, da mentira que gera a mentira, por omissão ou comissão, se encontre afastado para o mundo das trevas exteriores. Uma sociedade em que os messianismos secularizados não se apresentem como substituto fácil da fé na transcendência e em que esta não possa cobrir com o seu manto protector um mundo de superstição ou de interesses bem mesquinhos. Uma sociedade em que a ideologia ou sequer o real conhecimento não se subordinem à experiência vivida.(…)
Uma sociedade em que os mass media não gastem os recursos de todos a defender modelos culturais estranhos: o do êxito material como norma; o da mulher-objecto como parte; o do consumo pelo consumo como princípio dos princípios. Uma sociedade em que a força motora do progresso seja a fidelidade criadora – ou recriadora – aos melhores valores do passado: o sentido da honra e da descoberta, o amor ao torrão natal e a paixão da aventura, a procura épica do universal e o lirismo da acção concreta, a orientação para a transcendência e o humanismo dos limites, entre outros.(…)
Uma sociedade em que o capital-esperança não corra o risco de ser desperdiçado como tantas vezes na nossa história.(…)
Utopia esta sociedade dos nossos desejos e aspirações? Talvez, em parte. Mas, sem um mínimo de utopia, as sociedades humanas em geral e a portuguesa em particular ou caem na greve de braços caídos ou entram pelo labirinto de todos os maquiavelismos e oportunismos ou, mais gravemente ainda, sentem-se à beira-nada, esperando, num desespero, a própria morte.(…)
Como e porquê aconteceu assim? Eis aí perguntas que requereriam como resposta adequada duas condições aqui e agora irrealizáveis: o distanciamento no tempo e um conhecimento documental de tal ordem que eliminasse o domínio do simples palpite, a procura fácil do bode expiatório e a linearidade de um processo histórico que, ao contrário, parece ter sido terrivelmente complexo e difícil e onde o analista pode suspeitar, com fundamento, ter havido de tudo: lealdade para com a Pátria e a mais alta traição…» (Manuel Antunes, “Repensar Portugal. Nota de Abertura“, Abril de 1979)

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s