Lisboa à noite

Um alfacinha, um português que não se emocione com este relato, roubado à “Revista Bula” merece um par de bofetadas. «A velha Argentina Santos impõe-se, todos nós estamos com a atenção centrada nela, que não se abala e é toda seriedade: a mulher não esboça nenhum sorriso. Depois de cantar o refrão muitas vezes — e cada repetição é um lâmina espetada em nós —, ela encerra e deixa a clareira entre as mesas, carregando consigo nossas dores e saudades. Caminha no exíguo espaço entre as mesas com o queixo apontando para o alto; o brio de quem sabe que merece toda a atenção até nos faz esquecer o cenário pouco digno, com garçons correndo, barulho de copos e cadeiras arrastadas. Fascinado, eu a sigo com os olhos; seu porte me faz lembrar as mulheres duras e longevas da minha família — imagino que ela seja uma dessas rochas que esteiam todo um clã. R. e eu, machucados na alma, aplaudimos e tomamos largos goles do vinho, talvez tentando cauterizar as feridas.

Após mais um intervalo, há ainda Luís Tomar, competente e compenetrado no seu terno escuro, bem mais novo do que a anfitriã — devia estar na primeira dentição quando Argentina já fazia sucesso na Parreirinha. Ele parece ser o preferido de muitos, principalmente de alguns portugueses que, acredito, sejam clientes cativos da casa (mas não é o meu: Argentina tem o meu voto). Escrevendo agora, lembrei-me de uma descrição de uma sessão de fado que emocionou a norte-americana Frances Mayes, autora de best sellers sobre sua mudança dos EUA para a Toscana (“Sob o Sol da Toscana” e “Bela Toscana”); tenho certeza, sem ter ainda relido o texto, que ela se refere a Tomar e à Parreirinha. Procuro o livro, “Um Ano de Viagens”, e vejo que acertei na mosca (ela não cita expressamente a casa nem Argentina Santos, mas a descrição do local e o fato de Luís Tomar ser mencionado comprovam que foi na Parreirinha que ela teve “sua espinha dorsal transformada num fio elétrico”, como escreveu):

“O próximo cantor nos derruba de nossas cadeiras. É tão inverossímil! A fadista se encaixa no seu papel, mas Luís Tomar, rígido no seu terno, poderia estar vendendo apólices de seguros. Só para provar que não se deve julgar ninguém pela aparência, a sua voz, tão carregada de emoção contida, cinde os átomos da sala. A paixão ameaça subjugar a canção a qualquer momento, mas permanece contida, num timbre que corresponde exatamente às sinapses dos seus próprios sonhos e anseios íntimos. Gostaria que ele não parasse mais de cantar.”»

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