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Estava Portugal; mas não estava;
Jazia Portugal; mas não jazia:
Que o estado e o sepulcro em que se achava
De vida nem de morte lhe servia.
Para sofrer, a vida sustentava,
Para viver, da vida carecia,
Provando cada instante em triste abismo
Um golpe, uma ruína, um paracismo.

(Vicente Gusmão Soares, Lusitânia Restaurada, 1641)

«Immediately we noticed the castle. You can’t fail to. Medieval and partly Moorish, it sits astride one of the highest of the city’s many hills(…)

We didn’t plot a route. We intuited one. So the beauty we encountered was serendipitous: the mosaics of black and white stone with which so many of the sidewalks, esplanades and plazas are paved; the tiles — yellow, green, white — with which so many of the buildings are faced. Mosaics like these I’d seen elsewhere, though they had a special dominance and whimsy here. But tiles like these, used this way, were a revelation. It was as if Lisbon wore a set of jewels that other cities didn’t bother to.

(…)In Lisbon I have freedom. I can sprint into a random cafe to wait out a sudden downpour, discover that I like the progressive English folk music (Fink) pouring gently from the speakers, learn that the house white wine is utterly drinkable and just 2 euros a glass, and decide to stay for an aimless hour. This is what happened 15 minutes after I left the Church of São Miguel, which sits on a round plaza with a single thick palm tree in the center, and this is the true meaning of vacation.»

«(…)Japan’s 20-year battle with stagnation is a warning to the West. The country failed to purge its banks swiftly and relied on Keynesian fiscal projects to prime pump the economy each time growth stalled. The result was a string of false dawns, with public debt ratcheting ever upwards. The Bank of Japan dabbled with quantitative easing, but too little and too late. The bonds were purchased from a moribund banking system, a recipe for failure since this has little effect on the M3 money supply. “Japan was never early enough or ambitious enough in its use of monetary stimulus,” said Jamie Dannhauser from Lombard Street Research.(…) For Japan, the lost decades are tunning into a lost century

Berndadette Segol claims about youth unemployment in Europe that passing on risks and costs to customers in green economy would improve social justice and save the lost generation.

Jim Manzi suggests ironically that social science has been quite successful at demonstrating the failures of social engineering. The golden age of government-funded social-policy experiments was the late 1960s into the early 1980s. What good social science has revealed—that parents matter, genes matter, race matters, sex matters, and IQ matters — is the opposite of what the vast majority of social scientists wanted to discover.

«What does a Portuguese father of four school-age children do when he makes only €900 a month? He decides to emigrate.

Most Portuguese want to save as much of their salary in Angola as possible(…) They’ve agreed that he will move alone to the former colony and live there for three to five years, and he expects to spend lonely evenings “holed up at home with books and Skype.” His one condition is a free flight home once every six weeks.»

The title holds more truth than  the journalist probably imagined.

«Portugal sofre uma das crises mais dolorosas e exigentes. De facto existem vários tipos de choques económicos. Os piores vêm das guerras, que arruínam a própria sociedade. Existem também recessões por catástrofes, carestias, obsolescências, mudanças de hábitos. A mais irritante é a crise financeira, que aperta o cinto para pagar tolices da euforia anterior.(…)

Mas muito pior que a dimensão do encargo são os enviezamentos que o delírio impôs na estrutura produtiva. Nos anos de loucura muita gente trabalhou em actividades rentáveis apenas por endividamento; muitas empresas faziam negócios porque os clientes se empenhavam. Nisto os gastos do sector público destacam-se, mas havia muito mais. O resultado é que boa parte da nossa economia é balofa, produzindo a preços exagerados coisas que ninguém quer.

Assim o que hoje se sofre não é apenas a travagem de consumo gerada pela austeridade financeira. Largas centenas de milhar de trabalhadores terão de mudar de vida, porque os seus empregos artificiais nunca vão voltar, mesmo que o crescimento retome. Milhares de empresas têm de fechar ou mudar de sector porque o negócio acabou. Importante percentagem da sociedade terá que encontrar actividades realmente úteis. Portugal sofre uma das crises mais dolorosas e exigentes: a forçada reestruturação de quase vinte anos de distorção produtiva.»

«1 de Agosto de 1881. Pelas 20 horas e 15 minutos, partia da Gare do Norte de Lisboa (Santa Apolónia) um grupo de 42 expedicionários entusiásticos com a expectativa de uma viagem exploratória à serra da Estrela, região ainda desconhecida, selvagem e, em grande parte, desabitada, que encerrava em si mistérios e mitos. Partiram sob a aclamação calorosa de numerosa assistência, de representantes do Conselho de Ministros, do presidente e do primeiro secretário-geral da Sociedade de Geografia de Lisboa, do director e de alguns lentes da Escola Médico-Cirúrgica e de um grande número de membros da imprensa e das escolas superiores. Partiram enérgicos, sabendo que iriam defrontar as forças dos elementos naturais e não as feras de África. As vinte e três carruagens transportavam homens agasalhados com camisolas de flanela, casacos de Inverno, duas mantas inglesas e, ainda, botas de tamanho descomunal. Eduardo Coelho, o correspondente e director do Diário de Notícias , ironizava, escrevendo já a partir da serra, que era “toda a lã de um rebanho em cima de nós! Pôr sobre isto revólver, para lobos, toucinho para as víboras”.

28 de Abril de 2012. Da mesma estação ferroviária, parte pela tarde um grupo de expedicionários, com destino à estação da Covilhã, percurso em que saboreámos, em Abrantes, os doces locais que as gentes desta cidade nos brindaram durante a curta paragem do comboio. De Lisboa, partimos imbuídos de um espírito de aventura e de revisitação dos passos dos inesquecíveis Brito Capello, Sousa Martins, Rodrigo Pequito, Mouzinho de Albuquerque, Jayme Batalha Reis, Martins Sarmento, Joaquim Vasconcellos, Júlio Henriques, Jules Daveau e muitos outros que representaram 12 secções e uma auxiliar pertencentes à recente Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), promotora dessa expedição, enquanto a de agora teve a sua mobilização nas comemorações do centenário do turismo em Portugal (1911–2011), a fechar o seu ciclo comemorativo. A pernoita, nestes dias de revisitação, foi na Casa das Penhas Douradas, que serviu de quartel-general, a partir da qual se realizaram visitas a sanatórios e se calcorreou sensivelmente os mesmos trilhos do século XIX.

Presidida por Hermenegildo de Brito Capello, experiente explorador nas terras de África, a ideia da primeira expedição (1881) teve origem no ano anterior, a 5 de Julho, como projecto singular multidisciplinar, com orientação científica (pura e aplicada), com o objectivo de auxiliar o progresso das ciências médicas em território português. A proposta foi apresentada à Sociedade por Luciano Cordeiro, sob iniciativa de Luís Feliciano Marrecas Ferreira, contando com a entusiástica e esclarecida argumentação científica de Sousa Martins, “que pretendia instalar sanatórios na serra para tratar os tísicos portugueses”.

A serra da Estrela, na época também designada de Hermínio, era uma região cujo fascínio levou a que, algumas vezes, fosse percorrida por pequenos grupos motivados pela aventura e pelas suas singularidades, levando-os a entrar em territórios desconhecidos para observar “as alagoas ou poços, a célebre montanha dos cântaros, o pomar de Judas, e outras celebradas raridades geológicas”, muito sugestionados pela expedição que os especialistas em história natural, botânica e mineralogia, Link e Hoffmansegg, realizaram no século anterior, ou mesmo pelas descrições de J. Rivoli, em Die Serra da Estrela.

Um dos objectivos imediatos da expedição de 1881 foi o de estabelecer o posto meteorológico, um dos primeiros da Europa. O programa para esta instalação foi cuidadosamente preparado por Sousa Martins, já que as ciências médicas trabalhavam, inovadoramente, nas áreas prospectivas das patologias das altitudes, climatologia médica, flora aplicada à farmacopeia e meteorologia, as quais certificariam a instalação mais tarde da Estância Sanatorial.

A Comissão Organizadora conseguira o apoio político do Gover-no, e os municípios seriam decisivos para a concretização da expedição, sem o qual não teria sido possível a Sociedade de Geografia de Lisboa promover um projecto desta envergadura, que duraria 19 dias, com cerca de 100 homens, os especialistas idos de Lisboa, Coimbra, Porto e Guimarães e os das localidades da serra para trabalho auxiliar. Seguiram para aí laboratórios completos, com os equipamentos e intrumentos científicos de cada secção especializada, alguns deles construídos e adquiridos expressamente para a missão. A Estrela foi objecto de estudo, tornou-se laboratório e teve a maior concentração multidisciplinar de cientistas até à actualidade em Portugal.

Os expedicionários apenas transportariam uma diminuta bagagem de mão, podendo incluir alguns objectos pessoais e géneros selectos para consumir nos quinze dias de estada na montanha e, ainda, um bordão para os caminhos difíceis. No abarracamento da cumeada da serra, cada expedicionário encontraria uma maca de bordo e duas mantas, para cama; uma bacia de barro para lavagem; uma marmita para ração de cozinha; um cantil para ração de vinho.

Havia um regime alimentar rigorosamente militar, e todos à partida foram prevenidos: “Que os gastrónomos, se alguns vão, não criem ilusões. Hão-de contentar-se com um singelo rancho e rações. Às horas determinadas, salvo as indicações e conveniências de estudo: há as clássicas marmitas e cantinas. Um cozinheiro foi contratado em Lisboa e três ajudantes na Guarda. Haverá alvorada e silêncio a toque de corneta.” Uma agressão violenta para cientistas citadinos, atenuada pelo espírito de missão.

Todos os dias chegavam notícias a Lisboa. O Diário de Notícias fazia um relato pormenorizado passo a passo, com as informações dos telegramas postais e das crónicas de Eduardo Coelho enviados de Seia. Os telegramas recepcionados na Redacção eram colocados à consulta de outros periódicos nacionais.

Os dias sucedem-se, os expedicionários percorrem a pé vários quilómetros, vencendo desfiladeiros e gargantas serranas. Apenas sossegam quando dormem de noite. Num ambiente de alegre camaradagem, as diferentes secções consomem o tempo, pesquisando, recolhendo, medindo e fotografando os elementos. A secção médica destacava-se, pela concorrência de visitantes, pelos instrumentos científicos e pela singularidade de Sousa Martins que, de barrete verde de campino – nasceu em Alhandra -, fazia clínica, observações, experiências e cirurgias aos aldeões que a ele se acercavam.

As excursões apresentavam-se surpreendentes, sobretudo a das lagoas, com a desmitificação da lagoa Escura, antes imaginada sem fim, a comunicar com o mar. O grupo ficou extasiado pela posição das mesmas, “separadas uma da outra por uma faixa de granito de alguns metros de extensão, contornada por zimbros formosos”, num cenário de uma beleza notável, e sem “monstros do abismo e o mouro encantado”, figuras que evadiam a imaginação dos cientistas antes desta experiência pioneira. O grupo estava maravilhado: o horizonte parecia infinito.

Houve jantares invulgares e até uma procissão já no final para se proceder à devolução, entre as secções, dos instrumentos científicos, que foram elevados ao lugar de Santos. A população local foi, aliás, um parceiro determinante, aparecendo em massa no acampamento e contribuindo para avaliações médicas e partilhando lendas e histórias, verdadeiras e ficcionadas. Algumas destas perduram, tal como a imaginação de quem ainda se aventura, sob o sonho de querer e saber, acreditando que a serra é, ainda, muito mais que o manancial de informação que essa experiênca científica nos deixou e que, nestes dias, recriámos, também com aventura, festa, foguetes, música, jantares, piquenique, exposições e, sobretudo, com as gentes locais.

Pelas terras de Manteigas, Seia e Guarda, revivemos passos antigos, num palco privilegiado para viver experiências únicas, envoltas da nobreza das paisagens, das encostas vertiginosas, das lagoas e das pedras esculpidas, dos vales glaciares, das águas termais, da pureza do ar e do silêncio cristalino. Discreta, mas contagiante, a serra da Estrela foi uma aventura há mais de um século e, hoje, contém nela o turismo do futuro, onde o científico se revela em toda a extensão do olhar.»

«É fábula popular, Guerra Junqueiro pô-la em verso, muitos dias há que imagino o velho, o rapaz e o burro, e chamo à memória que “O mundo ralha de tudo, tenha ou não tenha razão”.
Tanta gente azeda por aí, quanto amargor e veneno a retorcer as bocas, doses grandes de inimizade gratuita a inchar os fígados. De Monção a Monchique, da ponta de Sagres às serras de Bragança, um refogar infindo de ódios, invejas, acusações e insultos.

Os blogues, que podem ser um quase ideal veículo para a partilha de ideias, emoções, conhecimentos, são também, e muito, a versão moderna, cibernética, mas nem por isso menos fedorenta, da cloaca.
E quanta opinião. Quantas convicções absolutas. Tanto juiz de andar por casa a imaginar-se, solene, proferindo sentenças de morte em tribunais de verdade.

Isto escrevi-o de manhã, igualmente azedo e mal-humorado. Depois veio o almoço, copioso, conversa amena em boa companhia, copito de aguardente velha, mais um café.
Sentei-me então a reler, e disse comigo que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Exagerei. Há que dar desconto ao semelhante e a nós próprios, todos temos horas, alturas menos felizes. De facto, são indispensáveis as cloacas, as fossas, os montes de estrume, mas ninguém nos obriga a pôr-lhes o nariz em cima. É passar de largo. »

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